set 02
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Texto de Satyaraja Dasa

A compreensão Vaisnava da Verdade Suprema fornece uma resposta satisfatória para a pergunta“Deus é masculino ou feminino?”.

 

Essênciada beleza e da relação,

Quintessênciada compaixão e bem-aventurança,

Corporificaçãoda doçura e do brilho,

Epítomeda arte, da graciosidade no amor:

Queminha mente se refugie em Radha,

Aquintessência de todas as essências.

 

—Prabodhananda Sarasvati

 

Minha irmã Carol se tornou uma feminista radical nos últimos anos. Eu acompanhei seudesenvolvimento. Depois de ter devorado um livro após o outro sobre patriarcalismo e sociedades construídas por machistas, ela veio me procurar– seu irmão, que adora um Deus “masculino” –, vítima defilósofos sexistas, ludibriado por homens sem consideração pelas mulheres. Emoutras palavras, ela sabia que eu adorava Krsna, que é claramente masculino, eisto era suficiente para ela me colocar em pé de igualdade com aqueles quediminuem as mulheres. Ela ficou um pouco confusa, todavia, quando viu que eunão a contra-ataquei como machista, e, apesar de minha adoração a um Deusmasculino, eu não diminuía as mulheres. Ela se deu conta que eu era lúcidodemais para ser confrontado diretamente.

“Por que vocêadora aquele garoto azul Krsna?”, ela perguntou. “Por que você imagina Deus como masculino? Por que não imaginar Deus como feminino?”.

“Bom”, eurespondi rápido e irritado, como se uma conversa de dois minutos pudesse resumir a perspectiva teológica de uma pessoa: “Ele é Deus”.“E além do mais”, eu adicionei, “nós não imaginamos Deus como queremos. Aprendemos sobre Ele a partir das fontes autorizadas, as escrituras,sejam os Vedas, da Índia, ou escrituras ocidentais, como a Bíblia e o Corão”.

“Como você podesaber?”, ela perguntou. “Talvez esses livros estejam enrolando você. Eu diria que Deus teria de ser a mulher suprema, com toda a sensibilidadee elegância que isso implica”.

“Mas issonão é sexismo, apenas vindo da direção oposta?”

Eu esperei que aquela pergunta a fizesse pensar duas vezes.

“Se, por fim, Deus fosse a mulher suprema, isso não deixaria o homem fora da equação? Não se estaria dizendo que a forma da mulher é melhor do que a forma do homem? Vocêseria culpada por aquilo que você culpa a religião patriarcal”.

Depois de uma pausa, elaretrucou: “Mas você continua dizendo que Deus é homem…”.

“Primeiramente”,eu a interrompi, “de acordo com a consciência de Krsna, Deus é tantomasculino quanto feminino. Não é uma visão mais igualitária de Deus?”.

“Bom, talvez– se for verdade”, ela disse ainda descrente de uma tradição (e deum irmão) que ela havia se treinado para ver como sexista.

“Veja bem”,eu disse, “Krsna é descrito como Deus na literatura Védica porque Ele temtodas as qualificações de Deus. Por que você sabe que o Presidente dos EstadosUnidos é o Presidente? Porque ele tem as qualificações do Presidente. Ele temcertas credenciais. Não é que você possa simplesmente “imaginar”que alguém é o presidente e então – puf! – ali está opresidente. Não. Assim, se você estudar Krsna seriamente, você verá que Elepossui todas as opulências: força, beleza, riqueza, fama, conhecimento erenúncia. Qualquer um que tenha todas as essas qualidades em plenitude éDeus”.

Ela estava ficandoagitada. Ela já me ouvira falar aquela definição de Deus e pensou que eu estavafugindo do assunto de Deus ser feminino.

“Mas a consciênciade Krsna vai além”, eu continuei. “Radharani é a manifestaçãofeminina de Deus. Ela é a mulher suprema. Então, vemos Deus tanto comomasculino quanto como feminino”.

A Carol sorriu. Elatinha uma carta atrás da manga.

“Se vocêsreconhecem que Deus é tanto masculino quanto feminino, por que o principalmantra de vocês – aquela oração que você canta o tempo todo – éfocado em Krsna, o aspecto masculino de Deus?”.

 

O “Ela” doMaha-mantra

 

O que minha cara irmãnão sabia era que o maha-mantra é uma oração primeiro a Radha, e depoisa Krsna.

“Você conhece omantra que eu canto, sobre o qual você está falando?”

Ela o recitou:“Hare Krsna, Hare Krsna, Krsna Krsna, Hare Hare / Hare Rama, Hare Rama,Rama Rama, Hare Hare”.

Eu fiquei feliz em verque ela sabia o mantra.

“Você sabe o quesignifica Hare?”.

“Não”, elaadmitiu.

“É uma fortesúplica a Radha. Por ‘Hare’, nós nos referimos à Mãe Hara, outronome de Radha, de forma suplicante. Hare é a forma vocativa de Hara.Basicamente, o mantra está pedindo à Mãe Hara, Radha, que ‘por favor,ocupe-me no serviço ao Senhor’.”

“Quer dizer que ocantar de Hare Krsna é uma oração à forma feminina de Deus?”.

“Perfeito”.

Aquilo chamou suaatenção.

“Diga-me umacoisa”, ela disse com sua crescente curiosidade, “o que significa apalavra Radha?”.

“Significa‘aquela que melhor adora Krsna’.”

“Aha!”,minha irmã disse com o dedo indicador em riste. “Então Radha não éDeus. Se Ela é a melhor adoradora de Krsna, ela é obrigatoriamente distintadEle!”.

“Isso não éverdade”, eu disse. “Deus é a pessoa que faz tudo melhor. ComoKrsna diz no Gita, Ele é o primeiro e o melhor em todos os campos. Dasmontanhas, Ele é o Himalaia; dos corpos d’água, Ele é o oceano, e assimpor diante. Então, dos adoradores dEle, Ele também é o melhor [a melhor]. Quempoderia adorar Krsna melhor do que Ele mesmo? Ninguém. Dessa maneira, Ele semanifesta como Radha, Sua forma feminina, e mostra que Ele é Seu melhoradorador. Como Radha, Ele é o Deus adorador; e, como Krsna, Ele é o Deusadorado. Ambos igualmente excelentes”.

“Hmm. Fale-memais”, ela disse.

“Tudo bem, maspode ficar um pouco técnico”, eu disse. “Do ponto de vistaVaisnava, ou da consciência de Krsna, a energia feminina divina (shakti)implica uma fonte de energia divina (shaktiman). Assim, quando a deusase manifesta nas várias tradições Vaisnavas, ela sempre tem uma contrapartemasculina. Sita se relaciona com Rama; Laksmi corresponde a Narayana; Radha comKrsna. Uma vez que Krsna é a origem de todas as manifestações de Deus, SriRadha, Sua consorte, é a fonte de todas as shaktis, ou energias. Ela é,portanto, a Deusa original”.

“O Vaisnavismopode ser visto como uma espécie de Shaktismo, no qual a purna-shakti, amais completa forma da energia feminina divina, é adorada como o aspecto maisproeminente da divindade, até mesmo eclipsando o Supremo masculino em algunsaspectos. No Sri-Vaisnavismo, por exemplo, Laksmi (uma expansão primária de SriRadha) é considerada a divina mediatriz, sem a qual o acesso a Narayana não épossível. Em nossa tradição da consciência de Krsna, Radha é aceita como aDeusa Suprema porque Ela controla Krsna com Seu amor. Vida espiritual perfeitasó é obtenível por Sua graça”.

“Na tradicionalliteratura Vaisnava, Krsna é comparado ao sol e Radha ao brilho solar. Ambosexistem simultaneamente, mas um vem do outro. Ainda assim, dizer que o solexiste antes do brilho solar é incorreto – tão logo existe sol, existebrilho solar. E o mais importante: o sol não tem significado sem brilho solar,sem calor e luz. E calor e luz não existiriam sem o sol. O sol e o brilhosolar, portanto, coexistem, um igualmente importante para a existência dooutro. Pode-se dizer, então, que eles são simultaneamente unos e distintos.Eles são, em essência, uma única entidade – Deus – que se manifestacomo dois indivíduos distintos com o objetivo de se relacionareminterpessoalmente.

“Deixe-me ler algosobre isso para você do Caitanya-caritamrta [Adi-lila 4.95-98]:‘O Senhor Krsna encanta o mundo, mas Sri Radha encanta até mesmo Krsna.Assim, Ela é a Deusa suprema de tudo. Os dois não são diferentes, comoevidenciam as escrituras reveladas. E, ao mesmo tempo, eles são unos, assimcomo o almíscar e sua essência são inseparáveis, ou como o fogo e seu calor nãosão diferentes. Enfim, Radha e Krsna são um, embora Eles tenham aceitado duasformas para desfrutarem de um relacionamento”.

“Mas Krsnacontinua sendo a fonte. Ele é predominante”.

“Apenas em umsentido”, eu disse. “Em termos de tattva, ou ‘verdadefilosófica’, Ele é predominante. Mas em termos de lila, ou‘divinas atividades amorosas’, Radha predomina sobre Ele. E lilaé considerado mais importante do que tattva”.

Carol estavadeslumbrada.

“Eu não tinha amenor idéia disso tudo”, ela disse.

“Poucas pessoastêm”, eu disse a ela. “É por isso que os devotos trabalham duro nadistribuição dos livros de Prabhupada – queremos que este conhecimentoseja de todos”.

Carol me prometeu queiria começar a experimentar o maha-mantra e que nunca mais iria julgarprematuramente uma religião, especialmente a consciência de Krsna. Também mepediu por uma oração que se focasse na posição suprema de Radharani, algo queela pudesse cantar para se lembrar que a consciência de Krsna reconhece –até mesmo enfatiza – uma forma feminina de Deus. Eu pensei por uminstante e, então, compartilhei com ela um mantra composto por Bhaktivinoda Thakura,um grande mestre espiritual do começo do século XX:

 

atapa-rakita suraja nahijani
radha-virahita krishna nahi mani

 

“Assim como não hátal coisa como sol sem calor e luz, eu não aceito um Krsna que está sem SriRadha!” (Gitavali, Radhashtaka 8)

Carol estavadeslumbrada. Ela me revelou em confidência que há muito orava por uma tradiçãoreligiosa que não fosse sexista, que reconhecesse uma forma feminina do Divino.É claro que ela não estava plenamente convencida que Radha era essa religião,mas ela já estava, agora, desejosa de ouvir, já se abrira um pouco àconsciência de Krsna. Ela estava inclinada a começar com as práticas de base,como o cantar e a leitura dos livros de Srila Prabhupada. Ali estava umatradição que finalmente parecia atender a sua demanda, que satisfaria suasnecessidades feministas. Radharani era o sonho da minha irmã que se tornavarealidade – a resposta a uma prece feminista.

 

A Melhor das Gopis

 

Sri Radha é, dentretodas as gopis – vaqueiras namoradas do Senhor Krsna – a original.Ela é capaz de comprazer a Krsna com apenas um olhar de relance. Ainda assim,Radha sente que Seu amor por Krsna pode se tornar sempre mais grandioso,portanto Ela se manifesta como as diversas gopis de Vrndavana, quesatisfazem o desejo de Krsna por relacionamentos ricos em variedade (rasa).

As gopis sãoconsideradas o kaya-vyuha de Sri Radha. Não existe uma palavra em inglês[ou em português] equivalente a este termo, mas ele pode ser explicado daseguinte maneira: Se uma pessoa pudesse existir simultaneamente em mais de umaforma humana, aquelas formas seriam chamadas o kaya(“corpo”) vyuha (“multiplicidade de”) daqueledeterminado indivíduo. Em outras palavras, é a mesma pessoa, mas ocupandodiferentes espaços e tempos com diferentes humores e emoções. Como a únicarazão da existência de Radha e Krsna é a troca de sentimentos amorosos, as gopisexistem para auxiliá-lOs nesse amor.

As gopis sãodivididas em cinco grupos, o mais importante sendo o parama-preshtha-sakhis,as oito gopis primárias: Lalita, Vishakha, Citra, Indulekha,Campakalata, Tungavidya, Rangadevi e Sudevi. Muitos detalhes de suas vidas eserviço – incluindo a idade, o humor, o aniversário, temperamento,instrumento, cor da pele, nome dos parentes, nome do cônjuge, melodia favorita,melhores amigas, e outras informações de cada uma delas – são descritosnas escrituras Vaisnavas. Esses elementos formam a substância de uma meditaçãointerna, ou sadhana, projetada de forma a levar o devoto para o reinoespiritual. Através desta meditação, gradualmente se desenvolve prema,amor por Krsna. Essa forma avançada de contemplação, todavia, deve ser feitaapenas por devotos avançados sob a guia de um mestre autêntico. Tal nível éraramente alcançado. É, portanto, recomendado que se pratique o cantar do santonome e que se aceite o caminho regulado de vaidhi-bhakti – ou aprática da devoção sob estritas regras e regulações – como é ensinado nomovimento para a consciência de Krsna. Assim se alcançará naturalmente o nívelmais elevado de consciência espiritual.

A tradição Vaisnava nalinha do Senhor Caitanya vê, claramente, o amor das gopis como amortranscendental da mais alta estirpe, retaliando acusações de sexualidademundana com claras definições distinguindo luxúria e amor. Assim como o conceitoda Noiva-de-Cristo na tradição cristã e o conceito cabalístico do DivinoFeminino do misticismo Judaico, a verdade por trás do amor das gopis éde profunda natureza teológica e constitui o zênite da compreensão espiritual.O amor das gopis representa o amor mais puro que uma alma pode ter porsua origem divina; a única relação que tal amor talvez tenha com a luxúriamundana é a aparência, aparência esta que é desfeita tão logo se estude oslivros deixados pelas autoridades puras e auto-realizadas acerca destes tópicostão queridos ao coração.

 

Tradução de Bhagavan dasa (DvS)

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Escrito por Marina Tomaelo Bonilha \\ tags: , , , , , , ,